Aurelio Díaz Tekpankalli
Chefe dos Chefes do Fogo Sagrado de Itzachilatlan · Carregador da Chanupa · Guia da Dança do Sol
O caminho de um povo
Aurelio Díaz Tekpankalli nasceu no coração do México, na terra dos P’urhépecha de Michoacán, herdeiro de uma memória que atravessou séculos de silêncio. Ainda menino, foi o avô — descendente direto dos povos originários — quem lhe entregou a primeira semente: o chamado para recordar a verdade da terra, dos antepassados e da Pachamama.
A juventude o levou aos Estados Unidos, onde antes de se tornar guia de cerimônia foi muralista comunitário — tecendo nas paredes de Chicago a cosmologia que lhe foi confiada em segredo. Seus murais, retratos de uma América indígena que se recusa a esquecer, ainda hoje são preservados nos bairros de Pilsen e Little Village, e percorreram páginas da National Geographic e da Revista Américas.
O sagrado e o visual sempre coexistiram nele.
O encontro com o Fogo
O caminho cerimonial veio pelos encontros com irmãos indígenas nas reservas norte-americanas. Em 1980, em South Dakota, participou pela primeira vez da Busca da Visão. Conviveu com Henry Crow Dog, Leonard Crow Dog, Black Elk — anciões dos Lakota Sioux de Rosebud, onde mais tarde foi reconhecido como Chefe da Dança do Sol.
Em 1992, ao completarem-se 500 anos da chegada das caravelas que mudaram para sempre o destino dessas terras, Aurelio liderou a Caminata Continental pela Paz e Dignidade dos Povos Indígenas — um rezo que atravessou as Américas a pé, do Alasca à Patagônia, e levou a voz dos povos originários até as Nações Unidas.
Desse caminho nasceu, com bênção de muitos mestres, a Nação do Fogo Sagrado de Itzachilatlan — caminho espiritual que unifica numa só roda as rezas, os cantos e as medicinas de diferentes latitudes do continente. Hoje a Igreja Nativa Americana do Fogo Sagrado de Itzachilatlan tem representações no México, Colômbia, Peru, Equador, Chile, Argentina, Brasil, Portugal, Espanha e Inglaterra.
Tamoanchan — onde a árvore do mundo se ergue
O centro cerimonial de Aurelio fica em Tamoanchan, em Las Varas, Nayarit, na costa da Sierra Madre Ocidental. Tamoanchan, em náhuatl, é o nome cosmológico do lugar de origem da humanidade — a árvore que une terra e céu, “a casa dos pássaros das flores”.
Nomear assim o centro não é decoração: é declarar que aquele espaço é raiz do mundo. Lá pulsa, todo ano, a Dança do Sol, atraindo dançantes de todo o continente. Lá também acontece a Danza de la Estrella — cerimônia que Aurelio recebeu em visão, e que não existe em outra tradição exatamente desta forma.
Filhos da terra
Uma das ideias-chave que Aurelio trouxe ao Caminho Vermelho contemporâneo é a de que todos somos filhos da terra.
Não há antes nem depois. Não há um povo escolhido e outros excluídos. Toda a humanidade descende de uma mesma memória ancestral, e a tarefa desta vida é recordar a verdade original — aquela que pulsa em cada coração e que a Pachamama nunca esqueceu.
É por essa visão que a casa que conduzimos em Cotia se chama Aos Filhos da Terra.
A relação com nossa casa
Aurelio caminha com frequência pelo Brasil, e é com profunda honra que recebemos sua presença em nossa casa em Cotia. Sthan Xãnnia Tehuantepeltl — líder do Fogo Sagrado de Itzachilatlan São Paulo — caminha sob sua bênção e a do conjunto de anciões da nação.
Em agosto de 2023, Aurelio esteve no Aos Filhos da Terra para um testemunho público que segue vivo no acervo da casa. Sua passagem mais recente pelo Brasil ainda ecoa nos cantos e na água do Temazcal.
Para conhecer mais
- Una voz para los hijos de la tierra. Tradición oral del Camino Rojo (1996) — Aurelio Díaz Tekpankalli
- El regreso al camino de mis antepasados (2005) — Aurelio Díaz Tekpankalli
